Notícias

Paz em Casa: parceria capacita mulheres vitimadas

23/08/2018

“Me sentia muito mal por eu não ter estudo, por não ter independência financeira. Eu era totalmente dependente dele, não podia trabalhar fora e ele era muito ciumento. Uma mulher quando é humilhada não existe palavras para descrever o que a gente consegue sentir por dentro com tudo isso”. Esse é o relato de J.M.A., de 30 anos, desempregada e que enxergou uma grande oportunidade de mudar sua vida ao participar, nesta quarta-feira (22 de agosto), no Fórum de Cuiabá, do projeto de extensão ‘Educação para o Fortalecimento e Empoderamento de Mulheres em Combate à Violência e/ou em situação de vulnerabilidade social’.

Essa é uma das ações da Coordenadoria (Cemulher), dentro da programação da 11ª edição da campanha Justiça Pela Paz em Casa, e uma parceria entre a Primeira Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra Mulher da Capital e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT), campus Bela Vista.

J.M.A. conta que o relacionamento durou 15 anos e teve início quando ela ainda era menor. Ele, que tem o dobro da idade dela, passou a agredi-la verbalmente principalmente depois que se casaram. O relacionamento terminou há dois anos, mas ainda assim ele não aceitou a separação. Ela tem três medidas protetivas e diz que apesar de nunca ter sido agredida fisicamente, teme muito pela sua vida, uma vez que já foi ameaçada.

Com esse relacionamento abusivo, ela diz que as agressões começavam com brincadeiras de mau gosto, principalmente na frente dos familiares. Ela sempre conversava e ele dizia que iria mudar, mas isso acontecia apenas por algumas semanas. Além disso, ela não podia trabalhar fora ou estudar. “Até o dia que eu não quis mais. Ele dizia que eu tinha outro e me ameaçou por várias vezes, inclusive me jogar da sacada. Tenho medo, não consigo nem ouvir a voz dele porque ele conseguiu abalar todo o meu emocional. Só de escutar o nome dele eu fico trêmula”, relata.

J.M.A. fala que viu nessa oportunidade do projeto poder voltar ao mercado de trabalho e mudar sua própria história. “É muito importante buscar algo para reverter aquilo que não nos fez bem. Espero que tudo melhore para que eu possa viver a minha vida”.

A juíza da Primeira Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra Mulher da Capital, Ana Graziela Vaz de Campos Alves Corrêa explicou que por meio desse projeto serão oferecidas as oficinas, que são políticas públicas que visam erradicar a violência doméstica dentro da comunidade.

As oficinas ocorrerão a cada 15 dias no Fórum, na Casa de Amparo e na unidade socioeducativa, por meio da equipe multidisciplinar do IFMT, campus Bela Vista. Depois será dado início à capacitação dessas mulheres, com curso técnico, encaminhamento ao Ensino de Jovens e Adultos (EJA) ou até mesmo para curso superior.

“As oficinas terão palestras de orientações para qualificação profissional dessas mulheres, como elaborar currículo, como proceder em uma entrevista de emprego. Esse projeto é muito importante porque a vítima capacitada e com emprego sai do ciclo de violência”, disse a juíza.

A coordenadora Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher) no âmbito do TJMT, desembargadora Maria Erotides Kneip disse que esta ação vai permitir que as mulheres vítimas de violência possam produzir e obter o seu meio de sobrevivência, independentemente do agressor.

“Esse é um ganho para a nossa causa, o enfrentamento é muito grande. Estamos conseguindo meios para que essas mulheres consigam uma capacitação profissional. A mulher precisa ter meios de se manter. A dependência econômica e a violência patrimonial são empecilhos para que ela possa ser respeitada na sua condição de mulher”, salientou.

O pró-reitor de extensão do IFMT, Marcus Vinícius Taques Arruda informou que esse é um projeto que tem o propósito de atender mulheres em risco ou vulnerabilidade social, para que elas possam se capacitar e ter fonte de renda. Ele destacou a importância da parceria entre as instituições. “Quando o poder público como um todo se une para dar uma prestação de serviço melhor à comunidade é uma prática sempre muito exitosa, ainda mais em momentos onde os orçamentos são escassos. Com certeza essa é uma parceria que renderá muitos bons frutos para a sociedade, que é o público alvo e é para quem a gente tem que retornar a prestação desses serviços”.

A psicóloga do IFMT, Adriana Martins de Oliveira explicou que há uma equipe multidisciplinar que atua no projeto, onde são realizadas metodologias sempre em grupo através de rodas de conversa, minicurso e diálogo com essas mulheres. “Precisamos escutá-las para, a partir da realidade delas, apresentar a educação como um meio de fortalecimento no combate à violência. Essa parceria é excelente, uma iniciativa muito importante que pode fazer a diferença no trabalho que essas mulheres exercem, que elas possam vir a desenvolver, na capacitação delas, em um combate realmente à situação de violência que elas enfrentam todo dia”.

A coordenadora da Casa de Amparo, Fabiana Soares, disse que os trabalhos estão sendo bem aceitos e que está sendo muito importante para elas, que estão lá por conta da violência que sofreram em casa. “Toda ação voltada para a valorização do ser humano é bem vinda, principalmente para as mulheres que ficam sem um norte depois que sofreram violência. Esse projeto traz essa direção para elas, orienta sobre como elas podem sobreviver e sair do marasmo em que se encontram, para a vida atual. Com esse projeto percebemos o interesse da mulher em caminhar sozinhas, hoje elas têm força para vencer”, afirmou.

Estiveram presentes os juízes das varas especializadas de Violência Doméstica e Familiar contra Mulher de Cuiabá, Jamilson Haddad Campos, Gerardo Humberto Alves Silva Junior e as defensoras públicas Rosana Leite Antunes de Barros e Maila Cassiano Ourives que atuam no Núcleo de Defesa da Mulher.

Em Mato Grosso, a semana da Justiça pela Paz em Casa, realizada pela Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher) e pela Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso (CGJ-MT), teve início na segunda feira (20) e segue até sexta-feira (24).

A ação atende ao chamamento da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), e mobilizou o Poder Judiciário e parceiros para atuar no combate à violência doméstica e na promoção da paz nas famílias.

  

Dani Cunha/Fotos: Otmar de Oliveira (F5)
Coordenadoria de Comunicação do TJMT
imprensa@tjmt.jus.br
(65) 3617-3393/3394/3409